“Medo nós tem, mas não usa.” A frase de Margarida Maria Alves foi o grito de ordem que ecoou e impulsionou o Encontro de Mulheres do Semiárido, realizado em Gravatá (PE).

Promovido pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), o encontro reuniu mais de 150 mulheres de diferentes estados do Nordeste e de Minas Gerais. A delegação de mulheres da ASA-Bahia também esteve presente, fortalecendo a construção coletiva e o intercâmbio de experiências entre mulheres de diferentes territórios.

 

Apresentação da delegação de mulheres da Bahia.

 

Painel “Ser mulher num mundo de homens.”

A programação foi marcada por painéis que convidaram as participantes a contar, ouvir e reconhecer histórias, sempre com empatia, paciência e acolhimento. O primeiro deles, , reuniu Beth Cardoso, do GT de Mulheres da ANA; Maria do Céu, liderança do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Polo da Borborema (PB); Neuzilane Oliveira, assessora estadual da ASA Ceará; e Valquíria Lima, da Coordenação Executiva da ASA.

Quem libertou a gente foi a ASA”, afirmou Josefa, agricultora quilombola de Sergipe, ao falar sobre sua participação nas reuniões e sobre o espaço encontrado na ASA para falar, se informar e trocar experiências.

No encerramento do painel, Valquíria compartilhou um trecho do livro Múltipla Escolha (2011), da escritora e professora brasileira Lya Luft: “Há que ter alguma coragem. Há que ter algum sonho correndo nas veias, e um grão de loucura faiscando na alma”.

Representantes do Cedasb no Encontro de Mulheres: a jovem agricultora Erika Cordeiro e Jacqueline Viana, comunicadora do Cedasb.

O momento “Mulheres construindo a convivência com o Semiárido para além das tecnologias sociais” proporcionou a troca de experiências entre diferentes grupos de mulheres. Foram apresentadas iniciativas como a Marcha das Margaridas, na Paraíba; a Associação de Mulheres da Gameleira, em Pernambuco; os Quintais Produtivos da Associação da Vila Fomento, em Codó (MA); o Museu dos Povos Indígenas da Aldeia Nazaré, em Lagoa de São Francisco (PI); e a experiência do Grupo de Jovens Mulheres com o Óleo de Coco Agroecológico, do Assentamento da Reforma Agrária de Itapipocá (CE).

Política Nacional de Cuidados com Madalena Medeiros, coordenadora do Centro de Ação Cultural (CENTRAC).

Já o painel “Quem cuida de quem cuida?” ampliou os diálogos sobre os caminhos da Política Nacional de Cuidados (PNaC), instituída pela Lei nº 15.069/2024. A partir do tema, as participantes puderam reconhecer a presença do trabalho de cuidado em suas próprias rotinas e refletir sobre a necessidade de uma divisão mais justa e compartilhada dessas responsabilidades. O momento foi mediado por Madalena Medeiros, coordenadora do Centro de Ação Cultural (CENTRAC).

Outro tema de grande importância foi “Proteção, ética e eficiência na resposta a casos de violência no ambiente da ASA”, apresentado pela consultora Nara Menezes. A discussão abordou a Política de Salvaguarda Institucional da ASA/AP1MC e temas como os riscos operacionais e a responsabilidade da organização no contato direto com públicos em situação de vulnerabilidade.

Debate em plenária sobre “O que não pode faltar na Cartas das Mulheres da ASA?”

O painel “Narrativas de mulheres do Semiárido: as histórias que são nossas e ainda não ecoam” trouxe para o centro do debate a educação e a comunicação popular. O momento provocou uma reflexão sobre o papel da comunicação na disputa por espaços, direitos e orçamento, além de incentivar as agricultoras a contar suas próprias histórias e a se apropriar do direito de falar sobre si.

O encontro marcou um importante momento para a rede de articulação da ASA. Entre os principais resultados esteve a construção coletiva de uma carta política, elaborada pelas mais de 150 mulheres participantes, com as principais reivindicações das mulheres do Semiárido para as Eleições de 2026 e para o próximo período.

Mais do que um espaço de formação e troca de experiências, o Encontro de Mulheres do Semiárido reafirmou a força das mulheres na construção da convivência com o Semiárido e na luta por direitos. Mulheres que, como ensinou Margarida Maria Alves, reconhecem o medo, mas não deixam que ele determine seus caminhos.

 

Confira a carta política:

 

Confira mais momentos do Encontro de Mulheres do Semiárido:

 

Por Jacqueline Viana - Comunicadora Popular